sábado, 31 de janeiro de 2009

O benefício da dúvida

Certa feita li na dissertação de mestrado do Fábio Algusto Rodrigues e Silva a seguinte frase, como seu primeiro agradecimento:

"A Deus, que me permite o benefício da dúvida e a certeza da sua presença;"

Parei por um momento e refleti um pouco acerca dessa declaração. Conheci o Fábio um tempo depois na Faculdade de Educação da UFMG e tentei conversar sobre sua frase de agradecimento. Embora ele não me tenha parecido estar tão certo de sua fé como deveria estar quando a escreveu, tal declaração me fez pensar sobre o que significaria "que me permite o benefício da dúvida".

Estava a orar durante o período do louvor num culto da mocidade, na Igreja Batista Getsêmani, e clamava a Deus em favor dos jovens daquela igreja. Estava extremamente incomodado com as atitudes e os modos de vida que muitos cristãos têm levado. Estava aos prantos e pedia a Jesus que pelo menos uma pessoa sentisse o que eu sentida naquela noite. Minha oração era que Deus colocasse dúvida no coração desses jovens sobre sua vida cristã, a fim de que sua fé se firmasse, baseada em Cristo, alicerçada na Palavra.
Muitos cristãos têm sua fé baseada em coisas passageiras, fúteis, e ao sinal de qualquer abalo em suas estruturas desistem do Caminho, da vida com Deus. É preciso provocar um desequilíbrio na fé dos cristãos para que suas estruturas se firmem em Cristo. Vou explicar isso atrevés de um exemplo na área da Educação.

Algumas correntes em educação veem o aprendizado como uma construção. Uma boa analogia é pensar na construção de uma lage de concreto. Quando o concreto ainda está úmido, é preciso colocar vários andaimes e escoras. Mas essas escoras (apoios) não podem ficar ali para sempre, é preciso retirá-las gradativamente. Mas ao retirar os apoios, a carga sobre a lage começa a aumentar; isso provoca um relativo desequilíbrio, e à medida que os apoios vão sendo retirados a lage se mantém firme, e o concreto consegue resistir a carga que ele deve ser submetido.

Minha oração é que Deus coloque dúvidas no coração desses jovens (que retire as "escoras" sobre as quais sua fé está apoidada) para procovar um desequilíbrio no sentido de provocar mudanças substanciais em suas vidas; para que sua fé venha se basear em Cristo, para que haja mudança de atitude.

Fiquei extremamente incomodado quando alguns colegas professores não conseguiam fazer distinção entre evangélicos, testemunhas de Jeová e adentistas do Sétimo Dia. Será que não estamos fazendo nada de diferente que mostre a presença de Cristo em nossas vidas? Será que a presença do Espírito Santo é algo raro nesse dias? Ser "crente" dentro das quatro paredes da igreja é muito fácil. É muito fácil cantar louvores a Deus e dizer que somo "loucos por Jesus" no meio de milhares de pessoas que compartilham desse discurso. É muito fácil pular, dançar, levantar as mãos e orar, ir à frente do púlpito num lugar onde todos fazem a mesma coisa.

Ser louco por Jesus é ser cristão e seguir os passos de Jesus fora da igreja, longe das pessoas que têm a mesma fé. Difícil é ser "crente" em casa, na rua, na escola, na faculdade, no trabalho. Para muitos está difícil ser "crente" até mesmo sozinho, à frente do computador, no "youtube", no "orkut"! O que pensam os jovens estarem fazendo? Temos que ter Vida com Deus.

Às vezes entro em "crise". Me pego perguntando "por que sou cristão?"; "por que vou à igreja?"; "é necessário ir à igreja por ser cristão?"; "Deus existe?"; ou ainda: "será que isso tudo é verdade ou alienação?". Mas esses questionamentos me levam a pensar e refletir sobre minha fé em Jesus Cristo, sobre minha vida e o modo como Deus a mudou. Essa dúvidas me trazem privilégios, pois vejo, hoje, que tenho sido mais santo do que ontem. A cada dia sinto nojo pelo pecado e quero estar mais perto de Deus.

Há alguns anos atrás não teria coragem de declarar minha fé desse modo. Sempre levei as coisas de Deus a sério: mesmo não me posicionando e tomando a atitude de seguir a Deus a reboque das conseqüências de tal atitude; "pelo menos", procurava não tomar as coisas de Deus em vão. Preferia ficar frio a ficar morno - apesar de estar a um ponto de ser vomitado da boca de Deus.

Mas agora tenho certeza. Quero seguir os passos de Jesus. Mesmo que minha conta bancária estoure no "vermelho" e protestem meu nome; ainda que eu perca o emprego e não consiga mais pagar nosso apartamento e tenhamos que sair envergonhados; ainda que eu perca minha esposa, meus pais, meus irmãos e meu querido sobrinho; ainda assim terei certeza que posso crer em Jesus. Seu Santo Espírito me consolará, e me fará um novo homem. Deus pode mudar minha sorte, se Ele assim desejar. Ainda que eu morra (escrevo isso a ponto de chorar) saberei que fiz a vontade de Deus e procurei andar em seus caminhos. Aí então, O "conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido".

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