sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Salvação: De quê? - Cena 1


A mensagem do evangelho é para a salvação de todo aquele que crê. Não há dúvida quanto a isso. Na introdução à carta aos Romanos (1:16), Paulo declara isso abertamente. Explica ele em sequida: Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé" (ROMANOS, v. 17). Há inúmeras outras referências na Bíblia sobre salvação, mas creio que essa citação de Romanos já forneça elementos suficientes para um longo ensaio sobre o tema. Não pretendo ser exasutivo mas acretido que esse assunto pede um cuidado especial, pela razão fundamental de ser a salvação um dos pilares da vida cristã e da mensagem do evangelho.

Me converti ao evangelho em 1996 e ao ler, mesmo hoje, o que o autor de Hebreus recomenda nos versos 1 a 3 do capítulo 6, julgo apropriada a mim mesmo a advertência que ele dá nos versos 11 a 14 do capítulo 5. Mas se me serve de consolo a recomendação que Pedro dá em sua primeira carta (1 Pedro, 2: 1-3) prefiro me apegar ao leite espiritual puro, para por meio dele crescer para a salvação.

Apenas com essas considerações, o tema salvação já me remeteu a outro, correlacionado, mas porém nada fácil: justiça de Deus pelo princípio de fé. Obviamente esses assuntos não se esgotam e por ora gostaria apenas de fazer nesta série de tópicos alguns comentários sobre salvação.

Salvação: De quê? - Cena 2

Não acredito, sinceramente, que falar em salvação signifique apenas referenciar a uma absolvição da ira de Deus, de uma condenação final à qual a humanidade será submetida. Não. Acho muito pobre essa perspectiva. Salvação remete a liberdade. A liberdade de ser o meu "eu" verdadeiro como Deus planejou que eu fosse (John Stott, Porque sou cristão, 2004). O que isso significa? Que as pessoas não vivem verdadeiramente sua humanidade. Deixe-me tentar explicar. 


A corrupção, a maldade, é inerente ao ser humano. Não lhe é inata. Então de onde vem essa natureza pecaminosa? Uso o termo natureza no sentido antropológico. Se não é inata ao homem, ela foi adquirida. Conta-nos o livro de Gênesis o relato da queda. Deus criara o homem para ser humano. Apesar dessa redundância, isso significa que Deus o criara, à sua imagem e semelhança, para viver, desenvolver-se, gerar descendentes, cuidar da familha, cuidar da terra, arar o solo, plantar, colher, transformar a natureza com seu trabalho, ou seja, criar cultura. O homem surgiu pra ser um "ser" relacional, à semelhança do Deus triuno. Basicamente Deus disse ao homem e à mulher: sejam humanos. Não é meu foco aqui elaborar um ensaio sobre como Deus criou o homem, se foi um processo evolucionário ou não. A esse respeito ver Ernest Lucas - Gênesis e as questões de ciência (Ed. ABU).

Partindo dessa premissa, o elemento no qual o homem fora criado e no qual a sua vida faz sentido é o amor. Sendo um ser relacional, o amor assume uma importância fundamental na vida do homem. Ao ser o pecado introduzido no mundo, e por ele a morte (ROMANOS, 5:12-14) o homem fora separado de Deus. Aqui, morte significa exatamente isto: separação de Deus. Se entendermos a declaração de Agostinho: a alma vive quando ama, não quando existe (citado por John Stott, Porque sou cristão, 2004) podemos entender um pouco o que é a morte como separação de Deus.

O pecado nos trouxe a morte por meio de um só homem, o primeiro Adão. Mas Paulo nos ensina que a justiça de Deus e o perdão vieram, também, por meio de um só homem, Cristo, o segundo Adão. Acredito que nessa comparação podemos aprender um pouco sobre salvação. O primeiro Adão experimentou a corruptibilidade, introduzindo na natureza original do homem uma natureza pecaminosa. Todos nós temos essa natureza pecaminosa, inclusive Jesus - homem. Ter a natureza pecaminosa não significa que nascemos pecando. Não. O pecado é uma ação contra a vontade e os princípios de Deus. Cristo Jesus (homem), tinha uma natureza pecaminosa por assumir a natureza humana pós-adâmica, entretanto ele não pecou e por isso foi o único que podia pagar o preço para nos trazer de volta à Deus e restaurar nossa verdadeira natureza humana, à imagem e semelhança de Deus.

De quê somos salvos? Seguindo esse raciocínio, penso e acredito que somos salvos da natureza humana pecaminosa, corruptível. Isso não significa que iremos deixar de pecar enquanto vivermos esta vida. Absolutamente. Mas estamos num processo de transformação. Ao sermos salvos, deixamos a velha natureza, o velho homem, para vivermos pela esperança da vida eterna e abundante, na esperança de sermos transformados num corpo de glória, incorruptível.

Salvação: Por que? - Cena 3


Por que salvação? De forma rasteira, porque todos somos escravos. De quem? Como assim?


Vejamos as palavras de Jesus sobre isto:


Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: 
"Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará".
Eles lhe responderam: "Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como você pode dizer que seremos livres?"
Jesus respondeu: "Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado. O escravo não tem lugar permanente na família, mas o filho pertence a ela para sempre. Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres. (...)" (JOÃO, 8:31-36; NVI).


Tudo o que domina o homem, disso ele é escravo: drogas, sexo, pornografia, jogos, bebidas, cigarros, mentira, etc. A lista é longa... Na citação acima, Jesus afirma que o homem é escravo do pecado, pois este domina o homem. Evidentemente, todos nós pecamos, mas nem todos são dominados pelo pecado.


A Bíblia diz em Romanos (10:9-10) que ganhamos a salvação quando aceitamos a Jesus: ao confessarmos com nossa boca que Jesus Cristo é Senhor e crermos no coração [com entendimento] que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Todos nós nascemos escravos deste mundo, escravos do pecado. Humanamente é impossível ser diferente. Todos nós temos a natureza pecaminosa. Fomos escravizados pelo pecado que entrou no mundo. Mas Deus deseja que todos nós sejamos livres, por isso ele comprou nossa "carta de alforria" pagando preço de sangue na cruz. Somos livres do domínio do pecado quando aceitamos Jesus como Senhor e Salvador. Quando fazemos essa confissão a Deus, ele nos dá gratuitamente a nossa "carta de alforria". Não há nada que possamos fazer para comprá-la. Ela nos é dada gratuitamente pela graça de Deus, para que ninguém se glorie em si mesmo (EFÉSIOS, 2:8-9).


O Apóstolo Paulo nos ensina em Romanos (6:17-23) quais as implicações disso tudo:

Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
Falo isso em termos humanos, por causa das suas limitações humanas. Assim como vocês ofereceram os membros do seu corpo em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade, ofereçam-nos agora em escravidão à justiça que leva à santidade. Quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres da justiça. Que fruto colheram então das coisas das quais agora vocês se envergonham? O fim delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (NVI).


As palavras do Paulo são muito claras. Ao sermos salvos, nos tornamos agora escravos de Deus, escravos da justiça que leva à santidade. A analogia aqui é a do salvo como um escravo alforriado. Entretanto, Deus não é como o senhor que dá a "carta de alforria" aos que aceitam Jesus e os deixa à mercê. Não. Deus é como o senhor que dá a liberdade ao que era escravo e oferece sua própria casa para ele viver, trabalhar, sustentar-se e sustentar sua família. Mais do que isso, somos feitos filhos por adoção (ROMANOS 8:5; GÁLATAS, 4:5; EFÉSIOS, 1:5), e Deus não nos chama escravos, mas como filhos que têm lugar na família.

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 1


Muitos estão convencidos de que ter liberdade é ser livre para fazer o que quiser, ser livre para realizar suas escolhas, livremente, e baseado nessa escolhas tomar suas decisões. Mas podemos nos impressionar, pois isso não se traduz como liberdade.

Qualquer ser é livre dentro de certos limites. Liberdade absoluta é uma ilusão. Isso parece ser paradoxal, pois se não posso realizar o que quero e não posso tomar minhas decisões baseado em minhas escolhas, como posso ser livre? Onde fica o livre arbítrio?

O dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999) traz algumas definições para “liberdade” freqüentemente aceitas; dentre elas: Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas. (grigo é meu).

É interessante notarmos nessa definição que não há liberdade absoluta. Essa opinião é compartilhada pelo famoso escritor cristão John Stott, para o qual a verdadeira liberdade é a liberdade para ser um eu verdadeiro como Deus nos fez e desejou que fôssemos (STOTT, Por que sou cristão, 2004, p.98;). Esse autor afirma ser a liberdade absoluta, ilimitada, uma ilusão, uma impossibilidade. Stott dá um exemplo de um peixe em um pequeno aquário. Através de suas guelras o peixe absorve da água o oxigênio de que precisa. Os peixes encontram sua liberdade de serem eles mesmos dentro do elemento no qual encontra sua essência, sua identidade, sua liberdade. A água impõe uma limitação ao peixe, mas nessa limitação está a liberdade: de ser ele mesmo dentro dos limites que o Criador lhe impôs. Suponhamos agora que o peixinho nade dentro de seu pequeno lar de um lado para outro até que se sinta frustrado ao ponto de decidir apostar na liberdade saltando do aquário. Se conseguir cair em um lago num jardim, sua liberdade aumentaria. Porém, se caísse sobre o concreto ou sobre o tapete, sua aposta por liberdade se tornaria em morte (na obra citada, p.99-100).

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 2

O homem encontra sua liberdade para ser ele mesmo no amor, o elemento no qual encontra sua essência e sem a qual a existência humana é impossível. Agostinho declara que a alma vive quando ama, não quando existe. (citado por Stott, 2004 p.100).

John Stott nos apresenta uma situação interessante:


Isso nos leva a um paradoxo humano surpreendente. Deixe-me declara-lo simplesmente assim: a verdadeira liberdade é a liberdade de ser o meu eu verdadeiro, como Deus me fez e planejou que eu fosse. Mas Deus me fez para amar, e amar é dar, dar de si. Portanto, para que eu seja eu mesmo, tenho de negar-me a mim mesmo e dar de mim em amor a Deus e aos outros. Afim de ser livre, tenho de servir. Afim de servir tenho de morrer para minha própria autocentralidade. Afim de me encontrar, tenho de perder a mim mesmo no amor. (STOTT, 2004 p. 100-101).


Se sou livre quando sou o meu eu verdadeiro, e encontro essa liberdade no amor, como posso ser o meu eu verdadeiro se, amar, implica negar-me a mim mesmo?

Jesus ensinou-nos sobre esse paradoxo da liberdade. Em Marcos 8:35, Jesus afirma: “quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará”. Stott afirma que o substantivo grego traduzido nesse trecho como “vida” épsyche, e nesse contexto é melhor traduzido como “eu”, e apresenta uma tradução “moderna”:


Se você insistir em agarrar-se a si mesmo e viver para si mesmo, e recusar-se a deixar que o seu ego se vá, você se perderá. Mas, se você estiver preparado para se perder, para dar-se a si mesmo por amor a Deus e aos seus semelhantes, então, nesse momento de completo abandono, quando você pensar que perder todas as coisas, o milagre acontecerá e você encontrará a si mesmo (ibidem, p.102). (O grifo é meu).



João, em seu evangelho (capítulo 10), apresenta um relato em que Jesus comparava seus discípulos e aqueles que a ele seguiam às ovelhas, e se comparava à porta do aprisco das ovelhas. Dizia, ainda que os que não entram pela porta do aprisco são os ladrões e assaltantes. Os que o ouviam não compreendiam o que ele dizia. Então Jesus afirmou de novo: "(...) Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem (...)." (JOÃO, 10:7-10).


Essa declaração de Jesus é uma verdadeira mostra da liberdade que temos em Cristo. Enquanto ovelhas de seu aprisco somos livres dentro de certos limites. A exemplo de "peixinho de Stott", se uma ovelha decidir apreciar outras pastagens, pulando a cerca do aprisco, poderá ser dar muito mal. Poderá vir o lobo e a ovelha "aventureira" morrer.


É interessante notarmos no texto de João, citado acima, que Jesus não disse que as ovelhas não poderia sair do aprisco. Antes, ele diz "entrará e sairá". As ovelhas têm liberdade de sair e entrar pela porta do aprisco. Quando o fazem por seu pastor elas não correm risco. Em Cristo temos a liberdade de entrar e sair pela porta.

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 3

Encontramos nossa liberdade no elemento para o qual fomos criados: o amor. O "caminho excelente" de que Paulo fala em sua primeira carta aos Coríntios (capítulo 13): o amor paciente, bondoso. Que não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata e nem procura os seus interesses; que não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor que não se alegra com a injustiça, mas que se alegra com a verdade. O amor que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (ididem). Apenas em Cristo podemos encontrar esse amor. E é nesse elemento que encontramos nossa verdadeira liberdade, nossa identidade e essência. É com esse amor que Cristo nos conhece e nos vê.


Por nós mesmos não alcançaremos esse amor para encontrar a liberdade que tão sonhadamente desejamos. Mas como Paulo escreve (no mesmo capítulo): Agora conheço em parte; então conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. (1 CORÍNTIOS, 13:12). Apropriemo-nos das palavras de Paulo e declaremos: Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus. (FILIPENSES, 3:10-14).

Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
Falo isso em termos humanos, por causa das suas limitações humanas. Assim como vocês ofereceram os membros do seu corpo em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade, ofereçam-nos agora em escravidão à justiça que leva à santidade. Quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres da justiça. Que fruto colheram então das coisas das quais agora vocês se envergonham? O fim delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (NVI).

As palavras do Paulo são muito claras. Ao sermos salvos, nos tornamos agora escravos de Deus, escravos da justiça que leva à santidade. A analogia aqui é a do salvo como um escravo alforriado. Entretanto, Deus não é como o senhor que dá a "carta de alforria" aos que aceitam Jesus e os deixa à mercê. Não. Deus é como o senhor que dá a liberdade ao que era escravo e oferece sua própria casa para ele viver, trabalhar, sustentar-se e sustentar sua família. Mais do que isso, somos feitos filhos por adoção (ROMANOS 8:5; GÁLATAS, 4:5; EFÉSIOS, 1:5), e Deus não nos chama escravos, mas como filhos que têm lugar na família.