segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sexo no casamento: questão de HONRA

A mensagem de 1 Tessalonicenses



Um comentário por John Stott


1 Tessalonicenses 4:4 b-8. b). O sexo determinado por Deus tem um estilo: HONRA. 


O fato do casamento ser o único contexto dado por Deus para a relação sexual não significa que dentro do casamento não há necessidade de contenção. Todos nós já ouvimos ou lemos sobre, e alguns tem experimentado, as demandas sexuais egoístas que às vezes são feitas por um parceiro casado ao seu cônjuge, em termos de agressão, violência, crueldade e até estupro. Mas o casamento não é uma forma de luxúria legalizada. Assim, Paulo procede do seu primeiro princípio (cada homem possua a sua própria mulher) ao  segundo ( 'em santidade e honra ", RSV). Ao comportamento honroso no casamento ele contrasta com "luxúria apaixonada como os pagãos que não conhecem a Deus" (5). Em seguida, ele acrescenta que "nesta matéria ninguém deve fraudar seu irmão (ou mesmo sua irmã) ou tirar proveito dele" (ou dela) (6a). Alguns expositores têm traduzido as palavras "nesta matéria", por "em seu negócio" ou "em processos judiciais" (NEB.mg.), que a expressão grega poderia significar. Mas, tanto antes como depois o assunto tratado é o comportamento sexual, de modo que o contexto realmente exige que "nesta matéria" é uma alusão ao mesmo tema. Paulo está dizendo, então, da possibilidade dos parceiros sexuais no casamento fraudar ou tirar proveito do outro. O primeiro verbo (" hyperbaino") tem "a força ... de uma passagem de fronteira - aqui de atravessar a fronteira proibida e, portanto, invadir (sexualmente) em território que não é o seu próprio", enquanto o segundo verbo ("pleonekteo" , a cobiçar) é "o desejo de possuir mais, em qualquer área da vida". Qualquer que seja o significado preciso dado a estes dois verbos, eles são, evidentemente, incompatíveis com a santidade e o comportamento sexual honroso. 





O fato é que existe um mundo de diferença entre o desejo e o amor, entre desonrosas práticas sexuais que usam o parceiro e o verdadeiro amor de decisões que homenageia o parceiro, entre o desejo egoísta de possuir e do desejo de amor, carinho e respeito. Na verdade, "o Senhor punirá os homens por tais pecados, como já lhe disse e avisei" (6b). Porque mesmo o Senhor vê as intimidades dentro do quarto. Ele odeia todo tipo de exploração humana, incluindo o que é às vezes chamado de "exploração sexual". Não pode haver nenhum recurso para tal comportamento em um corte (na maioria dos países estupro no casamento não é um delito penal), mas haverá no tribunal de Deus (Cf. Hebreus13: 4). E ele vai vingar, porque ele "não nos chamou para sermos impuros, mas para vivermos uma vida santa (7). Portanto, aquele que rejeita esta instrução não rejeita o homem, mas Deus, que lhe dá o seu Espírito Santo" (8). 


Aqui, então, o sexo é uma ética para "os fracos", isto é, de acordo com o propósito de Deus o casamento é o contexto para o sexo e o estilo de sexo é a honra. É elementar, sem dúvida. Mas também é puro, sincero, prático, com autoridade, desinibido - na verdade, apenas o que os novos convertidos precisam, especialmente se eles estão expostos às normas e pressões pagãs. 



O que também é impressionante sobre este parágrafo é que se trata, do primeiro ao último, de um exemplo de "ética teológica, ética decorrentes da doutrina cristã de Deus. Se as nações se comportam como o fazem, porque "não conhecem a Deus" (5, Cf. Gálatas, 4:8; Romamos, 1:28; Efésios,.4 :17-19), os cristãos devem se comportar de uma maneira completamente diferente, porque conhecemos a Deus, porque ele é um Deus santo, porque ele é nosso Deus, e porque queremos agradar-lhe. Nós já vimos o ponto de vista teocêntrico de Paulo do evangelismo (capítulo 1 de Tessalonicenses) e do ministério cristão (capítulo 2), agora notamos também o o seu ponto de vista teocêntrico da moralidade. Ele reúne a vontade de Deus (3), julgamento (6), chamado (7) e dom do Espírito (8), e faz destes a base do seu apelo a nós, para que agrademos a Deus. Se reorganizar seus quatro pontos de vista de uma ordem teológica, o apóstolo está fazendo quatro afirmações. Primeiro, o chamado de Deus é a santidade (7, v. 2. Timóteo, 1: 9). "Sejam santos", diz ele, "porque eu sou santo." Em segundo lugar, a vontade de Deus é a nossa santidade (3). Em terceiro lugar, o Espírito de Deus é o Espírito Santo (8), que é dado a todo o seu povo, a fim de torná-los santos (2 Tessalonicenses 2:13. Cf. 1 Coríntios, 6: 19). Em quarto lugar, o julgamento de Deus cairá sobre toda a iniqüidade (6). Portanto, sem a santidade é impossível agradar a Deus.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Honestidade absoluta

Recentemente tomei algumas decisões sobre honestidade. Paricularmente tais decisões foram tomadas durante a realização de dois cursos - Homem ao Máximo, e Curso de Finanças Crown. Mas há um tempo atrás já orava a Deus pedindo a Ele que me mostrasse o que na minha vida não O agradava. Confesso que imediatamente me vinha à mente algumas coisas que eu preferia ignorar. Em princípio eram duas coisas: o ponto adicional de TV a cabo que eu tinha e "compartilhava" com outro morador do meu prédio, e a internet de outro morador que também era "compartilhada".


Desde o princípio sabia que esse "compartilhamento" não era legal. O contrato de serviços não me permitia fazer esse tipo de coisa e os produtos e serviços que contratara da TV a cabo eram apenas para serem usufruídos dentro da minha residência. Da mesma forma, fui cúmplice da ilegalidade cometida por outro morador, puxando um cabo de internet pra minha residência. Eu até tinha internet e TV a cabo instaladas em meu apartamento antes, mas com a justificativa de economizar fiz o que fiz. A palavra compartilhamento me dava a impressão do meu erro ser menor. Que tamanha ignorância a minha!


Mas graças a Deus eu ouvi a Sua voz e preferi obedecê-lo. Alguns podem dizer que foi a "voz" da minha consciência. Freud diria que foi a "voz" da civilidade, ocupando o "lugar do Pai" na minha consciência culposa. Mas Deus está em meu coração, tenho a mente de Cristo, e ela que me orienta em minha conduta. Por onde mais Deus poderia falar comigo senão pelo Seu Espírito que habita em mim, isto é, na minha mente, no meu coração? Portanto, retirei o ponto adicional de TV e a internet que estava "compartilhando". Esse compartilhamento também tem outro nome: pecado. Re-contratei um serviço de internet legal.


Um pouco depois desses episódios, Deus me mostrara outras coisas em minha vida que não O agradavam. Decidi então aniquilar, deletar, destruir todas as cópias não autorizadas de músicas e livros que eu mantinha meu poder, em mídias eletrônicas e nos meus arquivos no computador. Nunca comprara ou vendera CDs e/ou DVDs pirata, mas eu mesmo fiz uma cópia de um filme para mim. Também aceitei cópias pirata de filmes que me foram dados por outros. Sempre justificava essas práticas afirmando que pirataria seria eu fazer cópias para comercializar. Sinceramente, que diferença faz para o detentor dos direitos autorais se as cópias não autorizadas são, ou não, comercializadas? Nenhuma! De todas as maneiras, as cópias não autorizadas são uma atitude desonesta para com a pessoa que detém o(s) seu(s) direito(s) autoral(ais). Podem me criticar se quiserem. Mas considere que você seja autor de um livro, de músicas, de um projeto arquitetônico, etc. (produções suas que lhe custaram esforço e dedicação e tempo de trabalho). Ficaria você satisfeito se fossem desonesto com você, fazendo cópias não autorizadas do seu trabalho? Duvido que sua respostas seja um sincero sim. A não ser que você autorize expressamente que se façam cópias das suas produções. Destruí todas as cópias não autorizadas que possuía e estou com minha consciência limpa. E posso afirmar como o apóstolo Paulo: a minha consciência me dá testemunho de como me tenho conduzido no mundo, e esse é o meu orgulho! (2 CORÍNTIOS, 1:12).



O que aprendi com tudo isso? Aprendi a ser honesto, até nas pequenas coisas. Não para me promover ou para escrever isso aqui para minha honra. Não. Mas por amor ao Evangelho e por amor a Jesus Cristo. Aprendi também que muitas vezes substituímos a palavra pecado por problema, ou outro nome mais ameno. Afinal, se temos problema basta resolver se o mesmo nos incomoda; mas temos pecado isto exigirá de nós uma atitude de arrependimento, de mudança de direção na nossa conduta. E este último dói na carne.


Uma frase que resume tudo isso: "As coias pequenas são coisas pequenas, mas a fidelidade numa coisa pequena é uma grande coisa" (Hudson Taylor, Finaças: Manual do Participante, Crown Financial Ministries, p.55). Durmo com a consciência limpa e continuo humilde orando ao Senhor: "Vê se há em mim algum conduta que te ofende, e dirige-me pelo caminho eterno" (SALMO, 139:24).

sábado, 29 de agosto de 2009

Sou cristão, porque...


Um dia desses, enquanto dirigia passei a me questionar acerca da minha fé. Não me lembro exatamente o porquê. Mas me fazia estas pergutas: Por que eu sou cristão? Por que eu frequento a igreja? Para ser cristão eu preciso frequentar a igreja? Por que eu acredito naquilo em que acredito? Não contente com esses questionamentos, procurei refletir um pouco sobre isso.

Esses questionamentos provoracam um desequilíbrio em minha fé cristã. E isso foi bom, pois ao procurar um novo estado de equilíbrio, percebi que minha fé em Jesus Cristo fora fortalecida, como num processo de equilbração majorante descrito por Jean Piaget. Não pretendo, aqui, dar explicações teológicas a essas questões, até porque não sou teólogo, tampouco estudioso em teologia. Minha formação acadêmica é em física, sou físico e licenciado em física, e todo os meus estudos posteriores têm sido na área da educação, e agora, também, em microscopia eletrônica. Com relação ao campo da teologia (se é que assim posso dizer), ainda venho engatinhando.

Por que sou cristão? Quando me fiz essa pergunta, não estava questionando apenas a minha própria consciência. Estava orando e também fiz tal pergunta a Jesus. Perguntar ao próprio Deus por que eu creio nele me pareceu algo estranho. Afinal, será que a análise da minha própria fé estaria sendo "isenta"? Me converti à fé cristã aos 15 anos de idade, aceitando a Jesus como único Senhor e Salvador da minha vida, e de lá pra cá tenho caminhado com Jesus, nos passos da fé cristã apostólica. Nesse tempo tenho aprendido os valores da vida cristã, num processo de enculturação. Minha cultura não fora mudada, completamente, mas tenho apreendido novos valores da vida cristã. Jesus Cristo foi forjando em mim um novo caráter, Cristo me permitiu enxergar o mundo a partir de um novo referencial. É como ter consciência da "Matrix".

No primeiro filme da trilogia "Matrix", o Morpheus oferece ao Neo duas pílulas (na mão esquerda uma azul, e não mão direita, uma vermelha). Morpheus diz ao Neo que, tomando a pílula azul, tudo voltaria ao normal e ele continuaria vivendo a sua vida, sem ter consciência do seu mundo e acordaria em sua cama acreditando no que quisesse. A pílula vermelha proporcionaria ao Neo ir ao "País das Maravilhas" e Neo saberia até aonda vai a "toca do coelho". Tomar a pílula vermelha é tomar consciência da "Matrix". Mesmo Morpheus não consegue definir o que é a Matrix, mas ele a descreve assim:

"A Matrix está em todo lugar. À nossa volta. Mesmo agora, nesta sala. Você pode vê-la quando olha pela janela ou quando liga sua televisão. Você a sente quando vai para o trabalho, quando vai à igreja, quando paga seus impostos. É o mundo que foi colocado diante dos seus olhos para que você não visse a verdade. Que você é um escravo. Como todo mundo, você nasceu num cativeiro, nasceu numa prisão que não conseque sentir nem tocar. Uma prisão para sua mente".



Usando a Matrix como uma analogia, o cativeiro e a prisão onde as pessoas nascem é o mundo de pecados em que reina a morte. Morte, aqui, não significa aniquilação, mas separação de Deus. Segundo a Bíblia todo homem sem Deus é morto espiritualmente (EFÉSIOS 2:5; COLOSSENSES 2:13; APOCALIPSE 3:1). Em Mateus (8:21,22) um dos seguidores de Jesus lhe pedira para sepultar seus pais antes de o seguir, e Jesus lhe disse que deixasse aos mortos essa tarefa: "Venha comigo e deixe que os mortos sepultem os seus mortos" (Nova Tradução na Linguagem de Hoje - NTLH). Também em Lucas (15:24;32) Jesus faz essa comparação, o filho pródigo é comparado a um morto e agora revive de volta à presença do pai. Em Efésios (2:1; NTLH) Paulo escreve: "Antigamente, por terem desobedecido a Deus e por terem cometido pecados, vocês estavam espiritualmente mortos".

A Cruz de Cristo reconcilia o homem com Deus e em Jesus todos são tornados filhos de Deus, por adoção (ROMANOS 8:15 e 9:4; GÁLATAS 4:5; EFÉSIOS 1:5). Embora estejamos no mundo, Jesus disse que não somos do mundo, e por isso o mundo nos odeia (JOÃO 15:19). Aceitar que Jesus mude nossa vida é como tomar a pílula vermelha (digo "como", pois não há analoga que descreva perfeitamente a liberdade que temos em Cristo Jesus, através do plano da salvação). Aceitar a salvação em Cristo é como ser livre do cativeiro da Matrix. Em Cristo passamos a enxergar o mundo como ele é e ter consciência desse mundo natural (ou virtual?) e de um outro mundo real, que também é espiritual (representada no filme, pela cidade Zion, ou Sião). Tendo, pois, consciência de quem eu sou em Cristo, não me preocupo com a objeção ao meu primeiro questionamento que fiz ao próprio Deus acerca da minha fé nele. Tenho consciência da "Matrix" e de "Zion".

John Stott aponta em seu livro "Porque sou cristão" algumas razões para isso, dentre elas:

(1) Porque Cristo me escolheu, e não eu a ele. Stott compara Jesus a um "cão de caça do céu". Não sou cristão porque atendi um apelo para ir à frente da igreja num belo culto, ou porque fiz uma oração de entrega a Deus, simplesmente. Sou cristão porque Jesus me escolheu e me chamou para ser filho de Deus;

(2) Sou cristão pelas afirmações de Jesus acerca de si próprio. Diferentemente de qualquer outro líder religioso, ou qualquer outro profeta, Jesus declarou ser Deus e assumiu essa condição;

(3) Por causa da cruz de Cristo. Em Jesus Deus manifestou seu amor e sua justiça. Ele foi justo condenando o pecado na carne, no corpo de Jesus, cumprindo a professia de Isaías (ISAÍAS, 56:4-10); e "amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (JOÃO, 3:16). Como oferta e sacrifício vivo Jesus se entregou para morrer em nosso lugar e pagar o preço pelo nosso pecado. Por preço de sangue Ele nos comprou para Si próprio.

Como John Stott coloca, alguém simplesmente poderia dizer: por que Deus simplesmente não perdoa os pecados? A questão é porque Deus é justo, e a Bíblia diz que "o salário do pecado é a morte" (ROMANOS, 6:23). Dessa forma o pecado deve ser condenado na carne, naquele que pecou. E porque Deus é amor, ele nos ofereceu o perdão pelos pecados oferecendo a Si próprio, em Jesus, para que o pecado fosse condenado no corpo de Cristo, na cruz. Mesmo sem ter pecados, Jesus se fez maldito (GÁLATAS, 3:13) levando sobre Si os nossos pecados, pagando preço de sangue. Jesus comprou a nossa "carta de alforria" e a queimou, nos oferecendo a liberdade de sermos nós mesmos, a liberdade de encontrarmos o nosso eu verdadeiro, em Cristo. Jesus "morreu a nossa morte para vivermos a Sua vida".

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Salvação: De quê? - Cena 1


A mensagem do evangelho é para a salvação de todo aquele que crê. Não há dúvida quanto a isso. Na introdução à carta aos Romanos (1:16), Paulo declara isso abertamente. Explica ele em sequida: Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé" (ROMANOS, v. 17). Há inúmeras outras referências na Bíblia sobre salvação, mas creio que essa citação de Romanos já forneça elementos suficientes para um longo ensaio sobre o tema. Não pretendo ser exasutivo mas acretido que esse assunto pede um cuidado especial, pela razão fundamental de ser a salvação um dos pilares da vida cristã e da mensagem do evangelho.

Me converti ao evangelho em 1996 e ao ler, mesmo hoje, o que o autor de Hebreus recomenda nos versos 1 a 3 do capítulo 6, julgo apropriada a mim mesmo a advertência que ele dá nos versos 11 a 14 do capítulo 5. Mas se me serve de consolo a recomendação que Pedro dá em sua primeira carta (1 Pedro, 2: 1-3) prefiro me apegar ao leite espiritual puro, para por meio dele crescer para a salvação.

Apenas com essas considerações, o tema salvação já me remeteu a outro, correlacionado, mas porém nada fácil: justiça de Deus pelo princípio de fé. Obviamente esses assuntos não se esgotam e por ora gostaria apenas de fazer nesta série de tópicos alguns comentários sobre salvação.

Salvação: De quê? - Cena 2

Não acredito, sinceramente, que falar em salvação signifique apenas referenciar a uma absolvição da ira de Deus, de uma condenação final à qual a humanidade será submetida. Não. Acho muito pobre essa perspectiva. Salvação remete a liberdade. A liberdade de ser o meu "eu" verdadeiro como Deus planejou que eu fosse (John Stott, Porque sou cristão, 2004). O que isso significa? Que as pessoas não vivem verdadeiramente sua humanidade. Deixe-me tentar explicar. 


A corrupção, a maldade, é inerente ao ser humano. Não lhe é inata. Então de onde vem essa natureza pecaminosa? Uso o termo natureza no sentido antropológico. Se não é inata ao homem, ela foi adquirida. Conta-nos o livro de Gênesis o relato da queda. Deus criara o homem para ser humano. Apesar dessa redundância, isso significa que Deus o criara, à sua imagem e semelhança, para viver, desenvolver-se, gerar descendentes, cuidar da familha, cuidar da terra, arar o solo, plantar, colher, transformar a natureza com seu trabalho, ou seja, criar cultura. O homem surgiu pra ser um "ser" relacional, à semelhança do Deus triuno. Basicamente Deus disse ao homem e à mulher: sejam humanos. Não é meu foco aqui elaborar um ensaio sobre como Deus criou o homem, se foi um processo evolucionário ou não. A esse respeito ver Ernest Lucas - Gênesis e as questões de ciência (Ed. ABU).

Partindo dessa premissa, o elemento no qual o homem fora criado e no qual a sua vida faz sentido é o amor. Sendo um ser relacional, o amor assume uma importância fundamental na vida do homem. Ao ser o pecado introduzido no mundo, e por ele a morte (ROMANOS, 5:12-14) o homem fora separado de Deus. Aqui, morte significa exatamente isto: separação de Deus. Se entendermos a declaração de Agostinho: a alma vive quando ama, não quando existe (citado por John Stott, Porque sou cristão, 2004) podemos entender um pouco o que é a morte como separação de Deus.

O pecado nos trouxe a morte por meio de um só homem, o primeiro Adão. Mas Paulo nos ensina que a justiça de Deus e o perdão vieram, também, por meio de um só homem, Cristo, o segundo Adão. Acredito que nessa comparação podemos aprender um pouco sobre salvação. O primeiro Adão experimentou a corruptibilidade, introduzindo na natureza original do homem uma natureza pecaminosa. Todos nós temos essa natureza pecaminosa, inclusive Jesus - homem. Ter a natureza pecaminosa não significa que nascemos pecando. Não. O pecado é uma ação contra a vontade e os princípios de Deus. Cristo Jesus (homem), tinha uma natureza pecaminosa por assumir a natureza humana pós-adâmica, entretanto ele não pecou e por isso foi o único que podia pagar o preço para nos trazer de volta à Deus e restaurar nossa verdadeira natureza humana, à imagem e semelhança de Deus.

De quê somos salvos? Seguindo esse raciocínio, penso e acredito que somos salvos da natureza humana pecaminosa, corruptível. Isso não significa que iremos deixar de pecar enquanto vivermos esta vida. Absolutamente. Mas estamos num processo de transformação. Ao sermos salvos, deixamos a velha natureza, o velho homem, para vivermos pela esperança da vida eterna e abundante, na esperança de sermos transformados num corpo de glória, incorruptível.

Salvação: Por que? - Cena 3


Por que salvação? De forma rasteira, porque todos somos escravos. De quem? Como assim?


Vejamos as palavras de Jesus sobre isto:


Disse Jesus aos judeus que haviam crido nele: 
"Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará".
Eles lhe responderam: "Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém. Como você pode dizer que seremos livres?"
Jesus respondeu: "Digo-lhes a verdade: Todo aquele que vive pecando é escravo do pecado. O escravo não tem lugar permanente na família, mas o filho pertence a ela para sempre. Portanto, se o Filho os libertar, vocês de fato serão livres. (...)" (JOÃO, 8:31-36; NVI).


Tudo o que domina o homem, disso ele é escravo: drogas, sexo, pornografia, jogos, bebidas, cigarros, mentira, etc. A lista é longa... Na citação acima, Jesus afirma que o homem é escravo do pecado, pois este domina o homem. Evidentemente, todos nós pecamos, mas nem todos são dominados pelo pecado.


A Bíblia diz em Romanos (10:9-10) que ganhamos a salvação quando aceitamos a Jesus: ao confessarmos com nossa boca que Jesus Cristo é Senhor e crermos no coração [com entendimento] que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos. Todos nós nascemos escravos deste mundo, escravos do pecado. Humanamente é impossível ser diferente. Todos nós temos a natureza pecaminosa. Fomos escravizados pelo pecado que entrou no mundo. Mas Deus deseja que todos nós sejamos livres, por isso ele comprou nossa "carta de alforria" pagando preço de sangue na cruz. Somos livres do domínio do pecado quando aceitamos Jesus como Senhor e Salvador. Quando fazemos essa confissão a Deus, ele nos dá gratuitamente a nossa "carta de alforria". Não há nada que possamos fazer para comprá-la. Ela nos é dada gratuitamente pela graça de Deus, para que ninguém se glorie em si mesmo (EFÉSIOS, 2:8-9).


O Apóstolo Paulo nos ensina em Romanos (6:17-23) quais as implicações disso tudo:

Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
Falo isso em termos humanos, por causa das suas limitações humanas. Assim como vocês ofereceram os membros do seu corpo em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade, ofereçam-nos agora em escravidão à justiça que leva à santidade. Quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres da justiça. Que fruto colheram então das coisas das quais agora vocês se envergonham? O fim delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (NVI).


As palavras do Paulo são muito claras. Ao sermos salvos, nos tornamos agora escravos de Deus, escravos da justiça que leva à santidade. A analogia aqui é a do salvo como um escravo alforriado. Entretanto, Deus não é como o senhor que dá a "carta de alforria" aos que aceitam Jesus e os deixa à mercê. Não. Deus é como o senhor que dá a liberdade ao que era escravo e oferece sua própria casa para ele viver, trabalhar, sustentar-se e sustentar sua família. Mais do que isso, somos feitos filhos por adoção (ROMANOS 8:5; GÁLATAS, 4:5; EFÉSIOS, 1:5), e Deus não nos chama escravos, mas como filhos que têm lugar na família.

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 1


Muitos estão convencidos de que ter liberdade é ser livre para fazer o que quiser, ser livre para realizar suas escolhas, livremente, e baseado nessa escolhas tomar suas decisões. Mas podemos nos impressionar, pois isso não se traduz como liberdade.

Qualquer ser é livre dentro de certos limites. Liberdade absoluta é uma ilusão. Isso parece ser paradoxal, pois se não posso realizar o que quero e não posso tomar minhas decisões baseado em minhas escolhas, como posso ser livre? Onde fica o livre arbítrio?

O dicionário Aurélio (FERREIRA, 1999) traz algumas definições para “liberdade” freqüentemente aceitas; dentre elas: Poder de agir, no seio de uma sociedade organizada, segundo a própria determinação, dentro dos limites impostos por normas definidas. (grigo é meu).

É interessante notarmos nessa definição que não há liberdade absoluta. Essa opinião é compartilhada pelo famoso escritor cristão John Stott, para o qual a verdadeira liberdade é a liberdade para ser um eu verdadeiro como Deus nos fez e desejou que fôssemos (STOTT, Por que sou cristão, 2004, p.98;). Esse autor afirma ser a liberdade absoluta, ilimitada, uma ilusão, uma impossibilidade. Stott dá um exemplo de um peixe em um pequeno aquário. Através de suas guelras o peixe absorve da água o oxigênio de que precisa. Os peixes encontram sua liberdade de serem eles mesmos dentro do elemento no qual encontra sua essência, sua identidade, sua liberdade. A água impõe uma limitação ao peixe, mas nessa limitação está a liberdade: de ser ele mesmo dentro dos limites que o Criador lhe impôs. Suponhamos agora que o peixinho nade dentro de seu pequeno lar de um lado para outro até que se sinta frustrado ao ponto de decidir apostar na liberdade saltando do aquário. Se conseguir cair em um lago num jardim, sua liberdade aumentaria. Porém, se caísse sobre o concreto ou sobre o tapete, sua aposta por liberdade se tornaria em morte (na obra citada, p.99-100).

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 2

O homem encontra sua liberdade para ser ele mesmo no amor, o elemento no qual encontra sua essência e sem a qual a existência humana é impossível. Agostinho declara que a alma vive quando ama, não quando existe. (citado por Stott, 2004 p.100).

John Stott nos apresenta uma situação interessante:


Isso nos leva a um paradoxo humano surpreendente. Deixe-me declara-lo simplesmente assim: a verdadeira liberdade é a liberdade de ser o meu eu verdadeiro, como Deus me fez e planejou que eu fosse. Mas Deus me fez para amar, e amar é dar, dar de si. Portanto, para que eu seja eu mesmo, tenho de negar-me a mim mesmo e dar de mim em amor a Deus e aos outros. Afim de ser livre, tenho de servir. Afim de servir tenho de morrer para minha própria autocentralidade. Afim de me encontrar, tenho de perder a mim mesmo no amor. (STOTT, 2004 p. 100-101).


Se sou livre quando sou o meu eu verdadeiro, e encontro essa liberdade no amor, como posso ser o meu eu verdadeiro se, amar, implica negar-me a mim mesmo?

Jesus ensinou-nos sobre esse paradoxo da liberdade. Em Marcos 8:35, Jesus afirma: “quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará”. Stott afirma que o substantivo grego traduzido nesse trecho como “vida” épsyche, e nesse contexto é melhor traduzido como “eu”, e apresenta uma tradução “moderna”:


Se você insistir em agarrar-se a si mesmo e viver para si mesmo, e recusar-se a deixar que o seu ego se vá, você se perderá. Mas, se você estiver preparado para se perder, para dar-se a si mesmo por amor a Deus e aos seus semelhantes, então, nesse momento de completo abandono, quando você pensar que perder todas as coisas, o milagre acontecerá e você encontrará a si mesmo (ibidem, p.102). (O grifo é meu).



João, em seu evangelho (capítulo 10), apresenta um relato em que Jesus comparava seus discípulos e aqueles que a ele seguiam às ovelhas, e se comparava à porta do aprisco das ovelhas. Dizia, ainda que os que não entram pela porta do aprisco são os ladrões e assaltantes. Os que o ouviam não compreendiam o que ele dizia. Então Jesus afirmou de novo: "(...) Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem (...)." (JOÃO, 10:7-10).


Essa declaração de Jesus é uma verdadeira mostra da liberdade que temos em Cristo. Enquanto ovelhas de seu aprisco somos livres dentro de certos limites. A exemplo de "peixinho de Stott", se uma ovelha decidir apreciar outras pastagens, pulando a cerca do aprisco, poderá ser dar muito mal. Poderá vir o lobo e a ovelha "aventureira" morrer.


É interessante notarmos no texto de João, citado acima, que Jesus não disse que as ovelhas não poderia sair do aprisco. Antes, ele diz "entrará e sairá". As ovelhas têm liberdade de sair e entrar pela porta do aprisco. Quando o fazem por seu pastor elas não correm risco. Em Cristo temos a liberdade de entrar e sair pela porta.

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 3

Encontramos nossa liberdade no elemento para o qual fomos criados: o amor. O "caminho excelente" de que Paulo fala em sua primeira carta aos Coríntios (capítulo 13): o amor paciente, bondoso. Que não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata e nem procura os seus interesses; que não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor que não se alegra com a injustiça, mas que se alegra com a verdade. O amor que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." (ididem). Apenas em Cristo podemos encontrar esse amor. E é nesse elemento que encontramos nossa verdadeira liberdade, nossa identidade e essência. É com esse amor que Cristo nos conhece e nos vê.


Por nós mesmos não alcançaremos esse amor para encontrar a liberdade que tão sonhadamente desejamos. Mas como Paulo escreve (no mesmo capítulo): Agora conheço em parte; então conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido. (1 CORÍNTIOS, 13:12). Apropriemo-nos das palavras de Paulo e declaremos: Quero conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação em seus sofrimentos, tornando-me como ele em sua morte para, de alguma forma, alcançar a ressurreição dentre os mortos. Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus. (FILIPENSES, 3:10-14).

Mas, graças a Deus, porque, embora vocês tenham sido escravos do pecado, passaram a obedecer de coração à forma de ensino que lhes foi transmitida. Vocês foram libertados do pecado e tornaram-se escravos da justiça.
Falo isso em termos humanos, por causa das suas limitações humanas. Assim como vocês ofereceram os membros do seu corpo em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade, ofereçam-nos agora em escravidão à justiça que leva à santidade. Quando vocês eram escravos do pecado, estavam livres da justiça. Que fruto colheram então das coisas das quais agora vocês se envergonham? O fim delas é a morte! Mas agora que vocês foram libertados do pecado e se tornaram escravos de Deus, o fruto que colhem leva à santidade, e o seu fim é a vida eterna. Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (NVI).

As palavras do Paulo são muito claras. Ao sermos salvos, nos tornamos agora escravos de Deus, escravos da justiça que leva à santidade. A analogia aqui é a do salvo como um escravo alforriado. Entretanto, Deus não é como o senhor que dá a "carta de alforria" aos que aceitam Jesus e os deixa à mercê. Não. Deus é como o senhor que dá a liberdade ao que era escravo e oferece sua própria casa para ele viver, trabalhar, sustentar-se e sustentar sua família. Mais do que isso, somos feitos filhos por adoção (ROMANOS 8:5; GÁLATAS, 4:5; EFÉSIOS, 1:5), e Deus não nos chama escravos, mas como filhos que têm lugar na família.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O benefício da dúvida

Certa feita li na dissertação de mestrado do Fábio Algusto Rodrigues e Silva a seguinte frase, como seu primeiro agradecimento:

"A Deus, que me permite o benefício da dúvida e a certeza da sua presença;"

Parei por um momento e refleti um pouco acerca dessa declaração. Conheci o Fábio um tempo depois na Faculdade de Educação da UFMG e tentei conversar sobre sua frase de agradecimento. Embora ele não me tenha parecido estar tão certo de sua fé como deveria estar quando a escreveu, tal declaração me fez pensar sobre o que significaria "que me permite o benefício da dúvida".

Estava a orar durante o período do louvor num culto da mocidade, na Igreja Batista Getsêmani, e clamava a Deus em favor dos jovens daquela igreja. Estava extremamente incomodado com as atitudes e os modos de vida que muitos cristãos têm levado. Estava aos prantos e pedia a Jesus que pelo menos uma pessoa sentisse o que eu sentida naquela noite. Minha oração era que Deus colocasse dúvida no coração desses jovens sobre sua vida cristã, a fim de que sua fé se firmasse, baseada em Cristo, alicerçada na Palavra.
Muitos cristãos têm sua fé baseada em coisas passageiras, fúteis, e ao sinal de qualquer abalo em suas estruturas desistem do Caminho, da vida com Deus. É preciso provocar um desequilíbrio na fé dos cristãos para que suas estruturas se firmem em Cristo. Vou explicar isso atrevés de um exemplo na área da Educação.

Algumas correntes em educação veem o aprendizado como uma construção. Uma boa analogia é pensar na construção de uma lage de concreto. Quando o concreto ainda está úmido, é preciso colocar vários andaimes e escoras. Mas essas escoras (apoios) não podem ficar ali para sempre, é preciso retirá-las gradativamente. Mas ao retirar os apoios, a carga sobre a lage começa a aumentar; isso provoca um relativo desequilíbrio, e à medida que os apoios vão sendo retirados a lage se mantém firme, e o concreto consegue resistir a carga que ele deve ser submetido.

Minha oração é que Deus coloque dúvidas no coração desses jovens (que retire as "escoras" sobre as quais sua fé está apoidada) para procovar um desequilíbrio no sentido de provocar mudanças substanciais em suas vidas; para que sua fé venha se basear em Cristo, para que haja mudança de atitude.

Fiquei extremamente incomodado quando alguns colegas professores não conseguiam fazer distinção entre evangélicos, testemunhas de Jeová e adentistas do Sétimo Dia. Será que não estamos fazendo nada de diferente que mostre a presença de Cristo em nossas vidas? Será que a presença do Espírito Santo é algo raro nesse dias? Ser "crente" dentro das quatro paredes da igreja é muito fácil. É muito fácil cantar louvores a Deus e dizer que somo "loucos por Jesus" no meio de milhares de pessoas que compartilham desse discurso. É muito fácil pular, dançar, levantar as mãos e orar, ir à frente do púlpito num lugar onde todos fazem a mesma coisa.

Ser louco por Jesus é ser cristão e seguir os passos de Jesus fora da igreja, longe das pessoas que têm a mesma fé. Difícil é ser "crente" em casa, na rua, na escola, na faculdade, no trabalho. Para muitos está difícil ser "crente" até mesmo sozinho, à frente do computador, no "youtube", no "orkut"! O que pensam os jovens estarem fazendo? Temos que ter Vida com Deus.

Às vezes entro em "crise". Me pego perguntando "por que sou cristão?"; "por que vou à igreja?"; "é necessário ir à igreja por ser cristão?"; "Deus existe?"; ou ainda: "será que isso tudo é verdade ou alienação?". Mas esses questionamentos me levam a pensar e refletir sobre minha fé em Jesus Cristo, sobre minha vida e o modo como Deus a mudou. Essa dúvidas me trazem privilégios, pois vejo, hoje, que tenho sido mais santo do que ontem. A cada dia sinto nojo pelo pecado e quero estar mais perto de Deus.

Há alguns anos atrás não teria coragem de declarar minha fé desse modo. Sempre levei as coisas de Deus a sério: mesmo não me posicionando e tomando a atitude de seguir a Deus a reboque das conseqüências de tal atitude; "pelo menos", procurava não tomar as coisas de Deus em vão. Preferia ficar frio a ficar morno - apesar de estar a um ponto de ser vomitado da boca de Deus.

Mas agora tenho certeza. Quero seguir os passos de Jesus. Mesmo que minha conta bancária estoure no "vermelho" e protestem meu nome; ainda que eu perca o emprego e não consiga mais pagar nosso apartamento e tenhamos que sair envergonhados; ainda que eu perca minha esposa, meus pais, meus irmãos e meu querido sobrinho; ainda assim terei certeza que posso crer em Jesus. Seu Santo Espírito me consolará, e me fará um novo homem. Deus pode mudar minha sorte, se Ele assim desejar. Ainda que eu morra (escrevo isso a ponto de chorar) saberei que fiz a vontade de Deus e procurei andar em seus caminhos. Aí então, O "conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido".

sábado, 17 de janeiro de 2009

A ciência pode explicar como Deus age?

É correto interpretarmos fatos relatados na Bíblia à luz do conhecimento científico?

Entendo que a resposta não deva ser apenas "sim" ou "não". Ernest Lucas (doutor em Química pela University of Kent, pós-doutor em Bio-química na University of Nortrh of Carolina, Teólogo pela Oxford University e PhD em Estudos Orientais pela Liverpool University) pontua em seu livro "Gênesis hoje: Gênesis e as questões da ciência" que se a nossa interpretação da Bíblia concorda perfeitamente com a ciência de hoje, é quase certo que não concordará com a ciência de amanhã. Embora Ernest Lucas não deixe claro nesse livro quais suas bases epistemológicas da ciência, concordo com tal afirmação.

O conhecimento científico é socialmente produzido e validado pela comunidade de cientistas. O objeto de conhecimento da ciência não são os fenômenos naturais puros, mas os modelos, leis, e teorias produzidos pela comunidade de cientistas para interpretar os fenômenos do mundo. Esses modelos são como lentes especiais através das quais os cientistas olham para os fenômenos da natureza. Nessa perspectiva podemos dizer que os experimentos científicos são a forma dos cientistas fazerem perguntas para a natureza e obter dela respostas para validar os modelos, leis e teorias construídos para interpretar os fenômenos. Sem essas "lentes especiais" não se faz ciência.

Algo característico sobre a ciência é que ela está em constante evolução e transformação. É possível que alguns modelos científicos que utilizamos hoje com relativo sucesso para descrever um fenômeno seja essencialmente diferente de outro modelo usado no passado para interpretar o mesmo fenômeno. Isso não quer dizer, necessariamente, que o modelo mais antigo esteja errado. Não. Pode ser que o modelo antigo seja agora um caso particular do modelo mais aceito. Como exemplo, a mecânica de Newton se tornou um caso particular da teoria da relatividade de Einstein; no entanto, os engenheiros utilizam com sucesso a mecânica newtoniana no limite de baixas velocidades (aliás, toda a engenharia civil, mecânica, metalúrgica e de minas é newtoniana). Até mesmo algumas idéias do Sistema Geocêntrico são usadas ainda hoje pelos astrônomos. O Sistema Heliocêntrico não é suficiente para estudar fenômenos fora do Sistema Solar. Não mesmo! Não estou aqui defendento a evolução da ciência como resultado de revoluções científicas com mudanças de paradigmas como sugere Thomas Kuhn, embora ele traga sua contribuição para a epistemologia da ciência. A título de exemplo, as próprias idéidas sobre evolução e origem das espécies de Darwin sofreram transformações pela comunidade de cientistas e o modelo mais aceito hoje difere do modelo original. Poderia citar vários exemplos como as evoluções dos modelos atômicos, da Grécia Antiga com Leucipo e Demócrito, passando pelos modelos de Dalton, Thomson, Rutherford e Bohr até o modelo quântico para o átomo. Esses modelos são essencialmente diferentes, mas dependendo do nível de generalidade que se quer numa explicação, muitos deles são ainda utilizados com relativo sucesso.

Toda a ciência é uma invenção humana poderosa para interpretar o mundo natural. A ciência pode nos auxiliar no caso de querermos entender como pode ter ocorrido algum aconcetimento relatado na Bíblia, mas não nos fornece as ferramentos básicas para termos uma interpretação satisfatória da Bíblia. É preciso considerarmos muitas outras coisas como as provas históricas, arqueológicas, o contexto sócio-histórico, cultural e político da época em que foram escritos os textos bíblicos. Quem são seus autores, de onde e para quem escreveram. Concordo com Ernest Lucas quando pontua que não devemos submeter a intermpretação da Bíblia à Ciência apenas, nem tirar conclusões a partir de uma leitura literal. Além de tudo isso, é preciso ter uma consciência cristã e pedir a Deus, em oração, que nos ajude a entender a Sua palavra e o que Ele tem a nos dizer.

Gostaria de dar um exemplo da utilização de conhecimentos científicos na interpretação de relatos bíblicos. Trata-se de um documentário veiculado pela Discovery Channel, intitulado: "A Bíblia: Mistérios Revelados". Nesse documentário vários pesquisadores dão sua opinião sobre como seria possível explicar as pragas enviadas por Deus ao Egito para pressionar o faraó a libertar o povo hebreu para que Moisés os guiasse até a terra prometida. Particularmente, acho o documentário bom, mas há algo que me incomoda, o fato de muitos cientistas sugerirem uma dicotomia entre aquilo que é "a mão de Deus" agindo e aquilo que é um "fenômeno natural" como se fossem opostos. Ora, um fenômeno natural é uma ação de Deus. Vejamos o que diz o salmista:

"Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento proclama a obra das suas mãos. Um dia fala disso a outro dia; uma noite o revela a outra noite. Sem discurso nem palavras, não se ouve a sua voz. Mas a sua voz resso por toda a terra, e as suas palavras, até os confins do mundo." (SALMOS, 19:1-4a; Nova Versão Internacional - NVI).

E ainda, Deus é capaz de fazer coisas que ainda não existem. O Apóstolo Paulo escreve: "(...) o Deus que dá vida aos mortos e chama à existência coisas que não existem, como se existissem." (ROMANOS, 4:17b; NVI).

Voltando ao documentário. Os cientistas entrevistados sugerem que as pragas do Egito estiveram interligadas, especialmente as primeiras seis pragas, e podem ser explicadas cientificamente. As hipóteses sobre como podem ter ocorrido as seis primeiras pragas são boas e podem explicar com relativo sucesso os episódios das pragas relatados no livro do Êxodo. Não descreverei aqui os detalhes do documentário. É possível que os relatos de Moisés das águas tornarem-se como sangue, a morte dos peixes, o aparecimento de muitas rãns, os enxames de moscas, as mortes dos animais e as feridas e chagas de pele nas pessoas estivessem relacionados e sua ocorrência (as primeiras seis pragas) fosse como um "efeito dominó". O documentário também mostra as hipóteses científicas para explicar o fenômeno da sarça ardente em chamas, da qual Deus falou a Moisés e a ocorrência das demais pragas: a chuva de granizo, os gafanhotos, a escuridão de três dias e a morte dos primogênitos. De todas as explicações mostradas no documentário, acho que a mais frágil é com relação à morte dos primogênitos. Mas meu objetivo aqui não é entrar numa discussão sobre as explicações científicas para as pragas no Egito. São hipóteses para possíveis explicações sobre como Deus deve ter agido no episódio das pragas. A propósito, boas hipóteses; nada mais do que isso.

Na sequência o documentário também mostra algumas considerações de vários estudiosos sobre a rota mais provável para o êxodo do Egito até o Monte Sinai, as possíveis explicações científicas para a coluna de nuvem e a coluna de fogo que guiava o povo pelo deserto e a abertura do Mar Vermelho. É fantástico como podemos entender e explicar o modo como esses episódios aconteceram! Não estou afirmando que as hipóteses e as explicações do documentário são absolutas. Não. Mas qualquer que entende um pouco sobre a natureza da ciência e gosta do assunto, maravilha-se com o poder (ainda que limitado) das ferramentas científicas. A questão que me motivou escrever este tópico é aquela que muitos cientístas e outras pessoas equivocadamente colocam, e que discordo veementemente: que se algo pode ser explicado cientificamente, como sendo um fenômeno natural, não seria portanto, acão de Deus. Ora, isso é ridículo, pra dizer o mínimo.

Minha visão é mais conciliadora. A ciência é uma ferramenta de pensamento humano surpreendente e notável. Quanto a isso não há dúvidas. Os modelos científicos são ferramentas culturais de pensamento para entendimento do mundo, sua elaboração envolve hipóteses que devem estar baseadas em evidências, debates, testes e experimentos, que são uma forma de corroborar um determinado modelo, lei, teoria a serem testados. Entretanto, os modelos científicos não são absolutos, não explicam tudo e não se aplicam com precisão infinita em nehum caso. Mas essa limitação não tira da ciência seu brilho e sucesso como empreendimento humano.

Acredito e defendo que em qualquer fenômeno natural há, sim, a ação de Deus. Deus não é aquele que criou as coisas, deu corda e deixou a máquina funcionar; Ele age constantemente sobre a natureza. O texto bíblico não é um texto científico e longe dele está a preocupação em dizer como as coias acontecem. Uma das mensagens da Bíblia é nos dizer com que propósito Deus fez e faz determinadas coisas. Claro, isso não nos impede de tentar entender como as coisas ocorrem, como podemos explicá-las. Aí, sim, a ciência tem uma contribuição importante. Retomando Ernest Lucas, concordo com sua afirmação que a ciência pode nos ajudar a entender como Deus fez as coisas, e isso já é maravilhoso! A ciência não diz porquê as coisas ocorrem, porquê elas foram feitas, mas como os fenômenos ocorrem. No máximo, sobre os "porques" a ciência pode estabelecer relações de causalidade.

Considerando as explicações mostradas no documentário "A Bíblia: Mistérios Revelados", algum crítico poderia dizer que Moisés soubesse de ocorrência de todos os fenômenos naturais e traçado um plano para, deliberadamente, exigir do faraó a libertação do povo hebreu. Daí, poderia ele guiar o povo pelo deserto e tornando-se um líder espiritual desse povo, atribuindo tudo à ação de Deus. Certamente tal crítico estaria certo ao dizer que Moisés teria atribuído tudo a Deus. Mas consideremos os fatos. Qual a probabilidade de Moisés conhecer todos os fenômenos naturais que dariam origem às pragas? Moisés não era cientista. Aliás, nem existia a ciência propriamente dita. Sim, Moisés foi instruído e educado no Egito, e é notório o conhecimento em "engenharia" e matemática dos egípcios. Mas é muito pouco provável que ele soubesse e conhecesse todos os efeitos dos fenômenos que poderiam desencadear as pragas. Ele teria que conhecer os tempos e as épocas certas para ocorrência de cada um dos fenômenos naturais descritos no referido documentário veiculado pela Discovery Channel, conhecer todos os efeitos e suas causas, além de contar com uma baita sorte para que a chuva de granizo ocorrece, mesmo que conhecesse sobre metereologia. Provavelmente Moisés conhecia a rota do Egito para o Monte Sinai, talvez de suas caminhadas pelo deserto, até porque ele fora antes para a terra de Midiã após ter matado um egípcio. Mas é muito pouco provável que Moisés soubesse qual a região do Mar Vermelho que fosse propícia para sua travessia em terra seca decorrente de um forte vento, como relata a bíblica; fenômeno que pode ser explicado e reproduzido nas condições ideais. Ora, é praticamente impossível que Moisés conhecesse todos esses fenômenos e os usasse deliberadamente para pressionar o faraó a libertar o povo hebreu. Como Moisés poderia saber de todas essas consequências e de suas causas? Como ele poderia saber os tempos exatos para a ocorrência de cada praga? Como ele poderia saber as condições ideais para a ocorrência de cada fenômeno? Como ele poderia influenciar a morte de todos os primogênitos, inclusive dos animais, do Egito? Logo ele, um homem que fugira da presença do faraó, por medo de ser morto. Onde ele poderia ter encontrado forças e coragem suficientes para retornar ao Egito, e na presença do faraó exigir a libertação do povo hebreu em nome de Deus? Só vejo uma explicação: Êxodo, capítulo 3.

O mais legal de ver documentários como esses, de ler sobre possíveis explicações naturais das coisas relatadas na bíblia é que elas pressupõem e aceitam a veracidade dos relatos bíblicos. E mesmo que muitos não aceitem, ela (a Bíblia) está acessível a todos e qualquer um pode estudá-la, seja para corroborar suas asserções, seja para tentar contestá-la, seja para falar com Deus e conhecer mais da sua natureza.