sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Jesus e o paradoxo da liberdade - Parte 2

O homem encontra sua liberdade para ser ele mesmo no amor, o elemento no qual encontra sua essência e sem a qual a existência humana é impossível. Agostinho declara que a alma vive quando ama, não quando existe. (citado por Stott, 2004 p.100).

John Stott nos apresenta uma situação interessante:


Isso nos leva a um paradoxo humano surpreendente. Deixe-me declara-lo simplesmente assim: a verdadeira liberdade é a liberdade de ser o meu eu verdadeiro, como Deus me fez e planejou que eu fosse. Mas Deus me fez para amar, e amar é dar, dar de si. Portanto, para que eu seja eu mesmo, tenho de negar-me a mim mesmo e dar de mim em amor a Deus e aos outros. Afim de ser livre, tenho de servir. Afim de servir tenho de morrer para minha própria autocentralidade. Afim de me encontrar, tenho de perder a mim mesmo no amor. (STOTT, 2004 p. 100-101).


Se sou livre quando sou o meu eu verdadeiro, e encontro essa liberdade no amor, como posso ser o meu eu verdadeiro se, amar, implica negar-me a mim mesmo?

Jesus ensinou-nos sobre esse paradoxo da liberdade. Em Marcos 8:35, Jesus afirma: “quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa e pelo evangelho, a salvará”. Stott afirma que o substantivo grego traduzido nesse trecho como “vida” épsyche, e nesse contexto é melhor traduzido como “eu”, e apresenta uma tradução “moderna”:


Se você insistir em agarrar-se a si mesmo e viver para si mesmo, e recusar-se a deixar que o seu ego se vá, você se perderá. Mas, se você estiver preparado para se perder, para dar-se a si mesmo por amor a Deus e aos seus semelhantes, então, nesse momento de completo abandono, quando você pensar que perder todas as coisas, o milagre acontecerá e você encontrará a si mesmo (ibidem, p.102). (O grifo é meu).



João, em seu evangelho (capítulo 10), apresenta um relato em que Jesus comparava seus discípulos e aqueles que a ele seguiam às ovelhas, e se comparava à porta do aprisco das ovelhas. Dizia, ainda que os que não entram pela porta do aprisco são os ladrões e assaltantes. Os que o ouviam não compreendiam o que ele dizia. Então Jesus afirmou de novo: "(...) Eu sou a porta; quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá, e encontrará pastagem (...)." (JOÃO, 10:7-10).


Essa declaração de Jesus é uma verdadeira mostra da liberdade que temos em Cristo. Enquanto ovelhas de seu aprisco somos livres dentro de certos limites. A exemplo de "peixinho de Stott", se uma ovelha decidir apreciar outras pastagens, pulando a cerca do aprisco, poderá ser dar muito mal. Poderá vir o lobo e a ovelha "aventureira" morrer.


É interessante notarmos no texto de João, citado acima, que Jesus não disse que as ovelhas não poderia sair do aprisco. Antes, ele diz "entrará e sairá". As ovelhas têm liberdade de sair e entrar pela porta do aprisco. Quando o fazem por seu pastor elas não correm risco. Em Cristo temos a liberdade de entrar e sair pela porta.

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