sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Salvação: De quê? - Cena 2

Não acredito, sinceramente, que falar em salvação signifique apenas referenciar a uma absolvição da ira de Deus, de uma condenação final à qual a humanidade será submetida. Não. Acho muito pobre essa perspectiva. Salvação remete a liberdade. A liberdade de ser o meu "eu" verdadeiro como Deus planejou que eu fosse (John Stott, Porque sou cristão, 2004). O que isso significa? Que as pessoas não vivem verdadeiramente sua humanidade. Deixe-me tentar explicar. 


A corrupção, a maldade, é inerente ao ser humano. Não lhe é inata. Então de onde vem essa natureza pecaminosa? Uso o termo natureza no sentido antropológico. Se não é inata ao homem, ela foi adquirida. Conta-nos o livro de Gênesis o relato da queda. Deus criara o homem para ser humano. Apesar dessa redundância, isso significa que Deus o criara, à sua imagem e semelhança, para viver, desenvolver-se, gerar descendentes, cuidar da familha, cuidar da terra, arar o solo, plantar, colher, transformar a natureza com seu trabalho, ou seja, criar cultura. O homem surgiu pra ser um "ser" relacional, à semelhança do Deus triuno. Basicamente Deus disse ao homem e à mulher: sejam humanos. Não é meu foco aqui elaborar um ensaio sobre como Deus criou o homem, se foi um processo evolucionário ou não. A esse respeito ver Ernest Lucas - Gênesis e as questões de ciência (Ed. ABU).

Partindo dessa premissa, o elemento no qual o homem fora criado e no qual a sua vida faz sentido é o amor. Sendo um ser relacional, o amor assume uma importância fundamental na vida do homem. Ao ser o pecado introduzido no mundo, e por ele a morte (ROMANOS, 5:12-14) o homem fora separado de Deus. Aqui, morte significa exatamente isto: separação de Deus. Se entendermos a declaração de Agostinho: a alma vive quando ama, não quando existe (citado por John Stott, Porque sou cristão, 2004) podemos entender um pouco o que é a morte como separação de Deus.

O pecado nos trouxe a morte por meio de um só homem, o primeiro Adão. Mas Paulo nos ensina que a justiça de Deus e o perdão vieram, também, por meio de um só homem, Cristo, o segundo Adão. Acredito que nessa comparação podemos aprender um pouco sobre salvação. O primeiro Adão experimentou a corruptibilidade, introduzindo na natureza original do homem uma natureza pecaminosa. Todos nós temos essa natureza pecaminosa, inclusive Jesus - homem. Ter a natureza pecaminosa não significa que nascemos pecando. Não. O pecado é uma ação contra a vontade e os princípios de Deus. Cristo Jesus (homem), tinha uma natureza pecaminosa por assumir a natureza humana pós-adâmica, entretanto ele não pecou e por isso foi o único que podia pagar o preço para nos trazer de volta à Deus e restaurar nossa verdadeira natureza humana, à imagem e semelhança de Deus.

De quê somos salvos? Seguindo esse raciocínio, penso e acredito que somos salvos da natureza humana pecaminosa, corruptível. Isso não significa que iremos deixar de pecar enquanto vivermos esta vida. Absolutamente. Mas estamos num processo de transformação. Ao sermos salvos, deixamos a velha natureza, o velho homem, para vivermos pela esperança da vida eterna e abundante, na esperança de sermos transformados num corpo de glória, incorruptível.

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